Carta à Comunidade Acadêmica da UFSC

Carta à Comunidade Acadêmica da UFSC

A Comunidade Acadêmica da Universidade Federal de Santa Catarina está ferida. Às vésperas dos cinquenta anos do início do Golpe Militar, estudantes e trabalhadores universitários foram duramente golpeados com a truculência da polícia federal e militar.

Por volta das 14h20 da terça-feira (25/03) os professores e estudantes estavam numa reunião do Conselho de Unidade do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFH quando foram surpreendidos com a informação de que havia policiais à paisana revistando alunos nas dependências do Centro. Nesse instante, a professora Sônia Maluf, vice-diretora desse Centro e eu, Wagner Damasceno, Chefe da Coordenadoria Especial de Museologia, nos dirigimos para o bosque do CFH atendendo ao informe dos alunos na referida reunião. Chegando lá, nos apresentamos como professores aos homens que revistaram os alunos e pedimos que se identificassem e relatassem o que estava acontecendo. O primeiro relato de um dos policiais foi o seguinte: “por ordem da Reitoria viemos investigar essa Amsterdam”.

Prontamente, eu e a Sônia retrucamos e pedimos ao policial mais respeito com a instituição e procuramos acionar alguns colegas que pudessem nos informar melhor sobre a situação. Os policiais haviam revistado a bolsa de vários estudantes e encontrado na mochila de um deles material que, supostamente, seria maconha. Os policiais conduziram o estudante pelo braço, bosque acima, em direção a um carro prateado que não estava identificado como uma viatura. A professora Sônia e eu tentamos impedir a retirada do estudante por entendermos que não se tratava de um flagrante e que isso feria a autonomia universitária, pensando no artigo 207 da Constituição Federal que prevê a Autonomia das Universidades.

Cumpre saber o seguinte: a Reitoria autorizou essa operação vexatória?

Certos de que não poderíamos permitir a saída do aluno daquela forma, a professora Sônia e eu tentamos dialogar com os policiais que se mostravam cada vez mais truculentos. Um desses policiais proferiu para mim o termo “ladrão” e depois disse que havia me chamado de “magrão”. Os alunos e alunas que nos acompanharam nesse processo tentaram dialogar com os policiais que rispidamente queriam “enfiar” o aluno no carro prateado não identificado. Não tivemos dúvidas: tentamos, pacificamente, impedir a saída do carro.

Não sem surpresa, na descida do bosque, vimos uma operação policial desproporcional ao que aparentemente se propunha. Vimos uma operação com muitos policiais e alguns deles fortemente armados para prender um jovem que, supostamente, portava uma pequena quantidade da referida substância.

Um dos policiais que estava fardado, mascarado e que não se identificou, dirigiu a mim, uma série de insultos e intimidações. Perguntou se eu era professor dessa Universidade e eu respondi que “sim” e, ao melhor estilo “capitão Nascimento”, começou a proferir mais insultos e dizer que eu era responsável por aquela “m…”. Ele veio, ferozmente, em minha direção e, a menos de um palmo de distância do meu rosto, começou a me ameaçar, me intimidar e dizer que acabaria com a minha carreira como professor.

Quando um dos policiais acusou-nos de estar acabando com o patrimônio público, respondi a ele, de forma contundente, que: “o maior patrimônio ali eram os alunos”.

Um terceiro policial pediu que a professora Sônia se identificasse – novamente – e ela mostrou sua carteira nacional de habilitação (CNH) que foi arbitrariamente apreendida.

Nesse ínterim, aconteciam duas reuniões importantes nas dependências do CFH: a reunião do Conselho de Unidades do CFH e uma Assembleia da Seção Sindical do Andes na UFSC.

Ambas as reuniões foram imediatamente encerradas e os professores que lá estavam se dirigiram para o bosque do CFH. Perfilaram-se junto a nós e aos alunos, os professores Paulo Pinheiro, o professor Paulo Rizzo e outros professores e professoras do CFH que, rapidamente, iam chegando. O número de alunos, técnicos e professores que acompanhavam o desfecho da ação policial foi aumentando rapidamente. Se a presença da comunidade acadêmica aumentava, a truculência policial também. Não foram poucos os policiais que hostilizavam professores e alunos e os ameaçavam. Um deles, saudoso de um tempo nefasto e covarde, falou para mim e para quem quisesse ouvir, o seguinte: “aproveite a democracia, porque se tiver uma ditadura você será o primeiro a dançar”.

Uma parte significativa da comunidade acadêmica estava presente no bosque do CFH e questionava a desproporcionalidade da ação dos policiais e queria que o aluno não fosse levado arbitrariamente. Diante do nosso posicionamento, os policiais nos propuseram os seguintes termos: ou “entregávamos” o aluno ou eles enviariam a tropa de choque para o campus. Cumpre esclarecer que o Chefe da Segurança da UFSC observava de perto o desenrolar dos acontecimentos, sem se posicionar. O que me pareceu um consentimento a essa ação autoritária e retrógrada.

Vários docentes e técnicos se manifestaram contrários à condução da ação e buscavam respostas da Reitoria.

Os alunos deram uma aula de solidariedade e os servidores docentes e técnicos também.

Mas, movidos por uma espécie de “orgulho policialesco”, a polícia federal autorizou a entrada da tropa de choque no campus da UFSC. O que se viu a partir daí foram cenas lamentáveis. Bombas de efeito moral, balas de borracha e cassetetes foram as respostas da polícia à comunidade acadêmica. O Diretor do CFH, professor Paulo Pinheiro Machado foi agredido com um forte esguicho de spray de pimenta no rosto e um fotógrafo captou essa imagem que já circula pela internet.

Não foram poucos os alunos, professores e técnicos feridos. Eu fui agredido com uma estocada de cassetete na barriga ao tentar impedir, pacificamente, que a tropa de choque continuasse avançando contra os alunos que já haviam recuado.

Vi muitos professores chorando e ao cruzar o olhar com os colegas percebi que muitos estavam atônitos, sem acreditar que aquilo estava acontecendo em nossa Universidade.

Muitos alunos foram atingidos pelos policiais e tentaram, legitimamente, se defender com aquilo que tinham às mãos: galhos de árvores e pedras. Muitos deles foram presos e levados pelos policiais – inclusive o estudante de Geografia que fora detido inicialmente, cujo nome desconheço até o momento. Um dos estudantes, Alberto, foi atingido por uma bala de borracha na perna e foi para o hospital. Depois de muita procura a Coordenadora e a vice-coordenadora do curso de Museologia localizaram-no e acompanharam o estudante no hospital, que passa bem.

Contudo, nessa tarde de terça-feira, uma parcela significativa da comunidade acadêmica se confrontou com o autoritarismo da polícia! Essa é a mesma polícia classista, racista, machista e homofóbica que matou a Cláudia da Silva e, depois, jogou seu corpo no porta-malas da viatura policial, com tamanha desumanidade, que seu corpo foi arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro. Essa mesma polícia é a responsável pelo desaparecimento do pedreiro Amarildo. Um aparato repressivo que é órfão de uma Ditadura derrotada e sepultada. Um aparato que não deixa de humilhar, matar e mutilar a nossa juventude, especialmente a negra e trabalhadora, pelo Brasil afora.

Entretanto, o que aconteceu na UFSC não é um fato isolado. Presenciamos uma escalada da repressão policial neste país, especialmente para garantir a realização dos megaeventos e para criminalização daqueles que lutam e questionam os gastos abusivos com a Copa do Mundo e com as Olimpíadas e que não encontram serviços públicos “padrão FIFA”. Os servidores TAE’s estão em greve em dezenas de universidades brasileiras e o movimento docente tem discutido, nacionalmente, a possibilidade de uma greve como alternativa às políticas de governo que destinam, por exemplo, 42% (R$ 1,002 trilhão) do Orçamento do Governo Federal para o pagamento da dívida pública e cortam R$ 44 bilhões que atenderiam diversas áreas sociais.

Recentemente, fui ao 33º Congresso do ANDES-SN como delegado, em São Luís, onde aprovamos, no Relatório Final do Congresso, uma moção de repúdio1 ao PLS 499. Segue nossa moção:

“Os delegados ao 33º CONGRESSO do ANDES, realizado em São Luís-MA, no período de 10 a 15 de fevereiro de 2014, manifestam repúdio ao PLS 499 de 2013, também chamado de “lei antiterrorismo”, criado com a única finalidade de criminalizar o movimento social e reeditando o Ato Institucional nº 5, uma verdadeira afronta às liberdades democráticas e aos direitos humanos. As punições são mais rígidas que a Lei de Segurança Nacional (LSN), editada durante a ditadura militar (1983) e ainda em vigor.

A imprecisão do texto abre um horizonte imenso de interpretações sobre o entendimento em torno do crime de terrorismo, podendo enquadrar supostos “arrastões” e “rolezinhos”, ou todo tipo de manifestações populares, que poderão ser reprimidas, tendo em vista essa nova norma, com punições muito mais severas que as vigentes, ameaçando com penas que variam de 08 a 30 anos de prisão em regime fechado.

Os delegados reafirmam ainda a disposição de lutarem pela plena liberdade de opinião e manifestação para os trabalhadores e a juventude, que lutam contra a opressão e a exploração” (ANDES-SN, 2014, p. 123).

O que aconteceu na UFSC merece nossa atenção e repúdio e, por isso, exige de nós uma resposta qualificada. Estudantes, docentes, técnicos-administrativos e toda comunidade devem participar da Assembleia Geral que ocorrerá hoje, às 10h da manhã, paralisarem suas atividades e cobrarem um firme posicionamento da Reitoria diante desse caso. Devemos dizer não à polícia no campus universitário e reafirmar a autonomia universitária.

Abraços
Professor Wagner Miquéias F. Damasceno – Chefe da Coordenadoria Especial de Museologia – CFH/UFSC

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